quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O estagiário e o ônibus

Nas duas pontas do trabalho que exerço – escolha de carreira para jovens e Coaching para empresas e profissionais – ouço versões diferentes da mesma situação: o papel do estagiário. Se por um lado as empresas reclamam do estagiário que chega com postura de patrão, por outro os jovens reclamam que o estágio costuma ser muito chato e que não tem “nada a ver” com a atividade que eles escolheram. Onde está a raiz do problema? Seriam apenas duas versões do mesmo fato?

Quando ficamos mais velhos, temos a tendência a falar que “no nosso tempo” as pessoas ou as coisas eram melhores. E que os jovens, ao começarem a descobrir o mundo, acreditam estar cheios de soluções. Por outro lado, o que vemos nos dias de hoje são mudanças muito rápidas em relação aos rumos que o mundo do trabalho vem tomando. Opinamos mais nas empresas, queremos ser ouvidos, queremos participar. Essa é uma tendência no mundo inteiro independentemente da idade. É uma mudança no mundo do trabalho e que veio para ficar.

O que vejo nesse relacionamento profissional entre gerações, tem origem fora da empresa. Muitos dos empresários e gestores que reclamam da postura do jovem são os que mais contribuem para a formação dessa situação, pela educação que dão para seus filhos.

Proteção ilusória


Com receio da violência e com a proposta de dar todas as oportunidades para o filho estudar e focar seus esforços no seu futuro, tenho visto alguns pais formarem adolescentes que beiram a incapacidade cognitiva de lidar com fatos do dia a dia. Agendas – geridas pelos pais -  lotadas de cursos e vazias de ação e responsabilidades fazem nascer profissionais teóricos – cheios de ideias e incapazes de coloca-las em práticas; irresponsáveis – a culpa é sempre do outro; e com pouquíssima habilidade para resolver problemas.

Como esperar que um jovem que a vida toda foi servido e fez apenas atividades que gosta consiga enfrentar de maneira positiva as exigências de um estágio? Como alguém que sempre esteve “por cima” no dia a dia da família pode se adaptar à posição mais humilde em uma organização?

Há algum tempo surgiu um post no Facebook - que ilustra este texto -  sobre a capacidade da criança em lidar gradativamente com responsabilidades dentro de casa. Tais atividades podem não ter nenhum cunho intelectual, mas são fundamentais na formação para a vida que esse jovem vai enfrentar como profissional. Para tirá-lo do mundo ideal, imaginário e colocá-lo gradativamente na realidade. Para que quando em seu estágio, ele não se ofenda na hora em que lhe pedirem para organizar o arquivo.

Outro item importante nessa formação é a independência. Em determinadas épocas do ano dou aulas de reforço escolar. Outro dia um fato me surpreendeu na casa de um aluno. Estudávamos na mesa da sala de jantar, bem ao lado da cozinha. Pedi ao garoto um copo de água. Em vez de levantar, andar quatro ou cinco passos para resolver o problema ele começou a gritar chamando a empregada que estava do outro lado do apartamento – de por volta de 200 m2 avisando que ela viesse para me servir a água. Com uma realidade dessas, dá para culpar o jovem que se revolta com seu estágio?

Além de interferir na formação da personalidade, essa distorção dentro de casa impede que o jovem consiga o que ele mais quer: independência. Quando não podem contar com os pais, têm o Uber para leva-los até a esquina e pagar com um cartão de crédito sem limites. Afinal de contas, andar de ônibus exige pesquisa, raciocínio lógico e direcional.

E não venham me dizer que deixar o jovem preso no condomínio ou apenas atrás dos vidros do carro é uma questão de segurança. O maior risco está em um pequeno retângulo que eles guardam no bolso e acessam a todo minuto no condomínio e dentro do carro: a internet no celular.

Aos pais que querem que seus filhos sejam bons profissionais, comecem pelo básico: que eles mesmo façam a sua inscrição no Enem, que paguem as taxas com a sua mesada. Que tirem seu prato da mesa, arrumem sua cama e pelo menos eventualmente andem de metrô ou de ônibus.

A proteção excessiva dada na adolescência como um ato de amor, tem efeito contrário quando esse jovem é jogado de uma hora para a outra no mundo. E para quem reclama do estagiário que tem: dê uma olhada no futuro estagiário que está sendo formado na sua própria casa. Para dar valor ao que se ganha é importante aprender a pagar o preço.