quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Uber pode nos tornar mais humanos

Dentre as competências mais procuradas em profissionais hoje está a capacidade de resiliência. Em diversos anúncios para cargos de liderança o termo está presente, bem como ele é citado na grande maioria das entrevistas de emprego.

Essa capacidade de se adaptar, de moldar-se às situações por maior que for a pressão e, posteriormente, voltar ao seu estado de origem – no caso dos metais o estado físico, no caso dos executivos o emocional – também está presente em boa parte das grades de treinamento de empresas especializadas.

Observando meus amigos e clientes notei que, na prática, há uma atividade que vem desenvolvendo essa competência com bastante eficácia e que não tem qualquer relação com a área de treinamento: o Uber.

Nos últimos tempos deparei com dois clientes que já ocuparam cargos de diretoria e presidência e multinacionais e hoje atuam como Ubers, em busca de uma renda extra. Um deles cadastrado como Uber Black e outro como Uber X, apesar do carro também luxuoso, apenas “da cor inadequada”.  Um não conhece o outro, mas ambos têm trajetórias parecidas: exímios em suas atividades, formações em faculdades de primeira linha, vivência no exterior e, durante anos com centenas de profissionais abaixo deles na escala hierárquica.

Na casa dos 50 anos, de uma hora para outra o castelo de cartas se desfez com a perda do emprego. No início, o padrão de vida foi mantido com a indenização e investimentos, até que o “momento Brasil” bateu na porta deles. Não consigo precisar como foi, na mente deles, o processo de se cadastrar no Uber.

O que eu consigo ver é como a atividade mudou a visão de mundo e de si próprios por parte de ambos. De servidos por suas equipes passaram a servir. A oferecer água e balas para seus passageiros. O quanto deve ter sido difícil para ambos ouvirem, em seus bancos traseiros, conversas sobre decisões relacionadas às suas antigas áreas sem poder participar da conversa.

Quantas vezes correram o risco de transportar antigos subordinados em alguma das tantas chamadas do dia. Uma situação em que teriam de chamar de senhor alguém com quem, em algum momento, podem ter sido injustos ou ter tratado da maneira pouco cordial no dia a dia de seus antigos empregos

Flexibilidade e prazer desconhecido


O que foi interessante em ambos os casos é que como, com o passar do tempo, a atuação do Uber aumentou a flexibilidade deles e lhes trouxe diversos momentos felizes. Ambos contam com entusiasmo da satisfação o que sentiram ao transportar um idoso para a casa dos filhos ou crianças ao encontro dos pais. Uma emoção diferente das que vivenciavam nos grandes projetos que comandaram em suas empresas.

O mais curioso é o quanto o “quebra-galho” criou raízes nos dois, bem mais pela emoção do que pela remuneração, já que o valor recebido pelo transporte não é suficiente para manter as respectivas famílias.  O meu cliente Uber Black abriu uma empresa em sua área de origem e que tem trazido bons resultados, suficientes para voltar ao antigo padrão de vida. Mesmo assim, ele mantém em sua agenda horários fixos na semana para continuar com a sua atividade como motorista. Tenta me convencer que é pelo dinheiro, mesmo com sua linguagem corporal dizendo totalmente o contrário.

O outro começa a recrutar amigos e ex-colegas para entrar no Uber – há uma pequena bonificação pela indicação – e vem cada vez menos se dedicando à recolocação ou aos serviços de consultoria. Quando vai programar sua agenda semanal entre o Uber e os processos seletivos, o segundo item vai perdendo espaço.  “Consigo perceber o retorno imediato de ter ajudado uma pessoa em um momento em que ela precisava. Já transportei pessoas da minha área com quem até já troquei ideias técnicas. A proximidade que eu tenho com essas pessoas é algo que eu havia perdido há anos no comando de grandes equipes.”

O propósito de contar essas duas histórias em momento algum sugere que eles estejam certos ou errados em suas escolhas. Ou suscita qualquer tipo de julgamento sobre a capacidade profissional de ambos. A ideia é mostrar apenas que mudanças profundas em nós podem ter origem em atitudes simples.  Os dois se tornaram efetivamente mais resilientes com essa experiência nas ruas, de servir desconhecidos. O quanto a vivência pode transformar mais efetivamente do que horas e horas em uma sala de treinamento com teorias complexas e situações simuladas. É uma homenagem ao simples que transforma a alma.