terça-feira, 29 de setembro de 2015

O preço da indecisão

“Uma decisão tão importante como essa não deveria se dar tão cedo”, ouvi uma vez de um professor de cursinho em relação à escolha da carreira pelos jovens. Na época eu até concordei, mas hoje revejo a minha posição. Será que o problema é a idade ou a base que está por trás dessa escolha? Talvez não só dessa escolha, mas de tantas que fazemos na vida com a total certeza de que não temos a mínima certeza de nada. Meu interesse pelo assunto se aprofundou quando, nos processos de coaching, encontrei alguns jovens em processo de sucessão de empresas familiares. Enquanto proferiam o discurso de quero dar continuidade ao negócio da família, exibiam uma expressão que mais se assemelhava a um gado indo para o matadouro.

Se por um lado alguns (raríssimos) abrem suas próprias empresas aos 14, 15 anos – quase sempre de tecnologia – outros ainda se veem com a responsabilidade de tocar o negócio dos pais, seja por respeito, por gratidão ou até por medo de decepcionar. O excesso de possibilidades - o Brasil oferece mais de 200 variedades de cursos superiores aprovados pelo MEC – também pode “travar” a escolha ou levar às carreiras mais tradicionais.  O psicólogo americano Barry Schwartz tem um trabalho bem interessante nesse sentido – de que quanto mais opções temos, mais nos prendemos ao tradicional, ao que já conhecemos.  

É possível mudar depois – vemos o número crescente de pessoas mudando de profissão depois dos 40 - eu por exemplo. Mas é diferente quando mudamos - seja por opção ou por necessidade – quando, no passado, acumulamos a alegria de uma escolha certa. O difícil é quando a mudança vem acompanhada por uma forte carga de frustração. O MEC divulga números entre 30 e 45% de alunos que trocam ou abandonam os cursos universitários, sendo que o dinheiro não é o principal motivo (temos faculdades que custam menos de 200 reais por mês). A questão, que vejo como primordial, é o quanto a escolha profissional está aliada a habilidades e atividades que o jovem gosta de fazer e o quanto está distante do seu propósito de vida? E vamos além. O quanto esse jovem sabe qual é o seu propósito de vida?

Profissão X propósito de vida


Questione um jovem sobre sua missão. Muitos não saberão responder ou responderão de maneira genérica como ser feliz, fazer o que eu gosto, ajudar os outros, dentre outras possibilidades.  Há ainda casos em que o jovem até sabe o seu propósito de vida, mas ainda não consegue alinhar esse propósito às suas aptidões. Exemplificando: digamos que um jovem encontra como seu propósito salvar vidas. Ah vai ser médico, podem dizer os pais e alguns professores. E o jovem podem embarcar nessa, apesar de não conseguir lidar com sangue ou ter dificuldades nas matérias biológicas no ensino médio. Podem vir daí, anos e anos de cursinho e uma desistência no meio da faculdade.
Fica a pergunta: quem disse que para salvar vidas é necessário especificamente ser médico ou atuar em uma área afim? Um jovem com forte habilidade em exatas pode criar um aplicativo para ser usado em hospitais ou que ajude na prevenção de doenças por exemplo. Será que essa relação mais complexa é clara para os jovens ou muitos ainda têm o pensamento linear que realmente precisam vencer sua aversão por sangue?

Outro ponto a ser considerado é o quanto esses jovens sabem do que tem por trás do lado bom, das atividades prazerosas das profissões que escolhem. O lado sombra que só aparece no dia a dia e por ainda não ser conhecido pode passar a sensação de logro. Será que esse jovem sabe tudo que abrange ter um negócio próprio além de não ter patrão e trabalhar com o que gosta?
Há diversos testes vocacionais, mas creio que é preciso ir além. É preciso promover o debate, instigar o jovem a primeiramente se conhecer e depois definir o que vai fazer. E também prepará-lo para dialogar sobre sua decisão com os pais e com outros nichos de seu relacionamento.  Nessa difícil escolha há também um trabalho a ser feito com os pais. De respeito, de conexão consigo mesmo e com o filho. De consciência das diferenças de visão de mundo e que eles, pais, não podem induzir e muito menos decidir. Afinal não se pode compensar uma frustração do passado com a geração que floresce agora.

Depois de muito pesquisar e refletir desenvolvi o projeto “O que eu vou fazer da vida” que trabalha de maneira profunda essa questão em um ambiente que o jovem gosta: debatendo com um pequeno grupo de outros jovens. A ideia é antes de tomar a decisão ou começar a olhar catálogos de profissões que o jovem descubra um pouco mais do seu eu.  Com seu propósito de vida em mente que ele comece a trabalhar suas possíveis escolhas de maneira completa: atividade, estilo de vida, congruência com as propostas pessoas e familiares, veja o lado bom e o lado ruim com a mesma clareza. E finalmente trabalhar sua escolha com os pais.

Quer conhecer o projeto? Estamos dando os primeiros passos. Venha caminhar conosco. Facebook: “O que eu vou fazer da vida”.