terça-feira, 8 de julho de 2014

Falsos heróis profissionais


Tanto nos processos individuais de coaching quanto em reuniões de equipes uma das frases que tenho ouvido muito é "eu dou o sangue por esta empresa e diversas pessoas que não fazem quase nada são mais valorizadas que eu". Lugar comum em nove entre 10 organizações, o lamento abaixo nem sempre é legítimo. Certamente há profissionais acomodados, que fingem que trabalham enquanto outros realmente colocam a mão na massa. Mas, a cada dia, percebo que esse número vem baixando, apesar de o lamento continuar crescendo.

Isso porque o principal problema não é a situação que gerou o lamento mas a visão de quem o faz. A cultura brasileira ainda olha muito para o trabalho quantitativo, ou seja, vale mais quem trabalha mais, sendo que, em diversos lugares do mundo a gestão empresarial está mais avançada e vale mais quem trabalha melhor. As nossas próprias leis trabalhistas favorecem o pensamento quantitativo.

Quantos de nós ouviram de pais e professores: para ter sucesso é preciso trabalhar muito. Sem dúvidas que há fundamento nessa afirmação. Afinal, esforço é item imprescindível em um crescimento embasado. Mas que tipo de esforço? Ainda acreditamos que o esforço está concentrado no operacional, no que as pessoas enxergam.

Dentro das empresas o foco no quantitativo é claro por muitos profissionais. Mas quase sempre o reconhecimento vem do qualitativo – pelo menos nas mais avançadas. Daquele profissional que pensa e analisa antes de tomar uma decisão, que tem autoestima suficiente para dizer não quando a proposta não trará resultados eficazes e que consegue sustentar um debate – mesmo com superiores e clientes – com argumentos. Ao contrário do "herói" que não mede a quantidade de horas que se dedica porque, quase sempre, a busca não é pelos resultados da empresa, mas pela atenção sobre si.

Foco em si e não na empresa

O herói está mais preocupado em ouvir "nossa como você se esforçou", "você trabalha tanto". Ele se envolve em tudo que aparece para parecer útil. Costuma, inclusive, assumir responsabilidades que não são dele, acreditando que isso é comprometimento. Parece ter vergonha de ir embora para casa no horário, em dar uma solução em pouco tempo. Tenta chamar atenção pela piedade. O herói adora equipes ineficazes ou de nível muito abaixo do seu. Porque ele precisa de plateia. Quando depara com um profissional sênior sente-se fragilizado emocionalmente. Principalmente se o outro tiver foco no esforço qualitativo.

Nesse caso, o herói não olha para o outro como parceiro com quem pode trocar e se unir, mas como alguém que precisa derrubar. E como pouco consegue com resultados – até porque seu foco não é a empresa mas chamar a atenção dos superiores – parte para a desqualificação do outro, para o lamento sobre si mesmo. Porque para o herói quanto pior ,melhor. Ele quer equipes ineficazes, clientes cruéis, mercado desigual para que possa supervalorizar o pouco resultado que consegue.

O resultado do herói é sempre quantitativo. Para a campanha fizemos 10 mil folhetos, 40 anúncios na TV, 30 faixas, 500 cartazes etc. O orgulho é da quantidade, do que se pode ver, em vez de apresentar como resultado: conseguimos a melhoria X para o cliente com apenas um folheto pois ele foi feito de maneira planejada, eficaz, com estudos prévios e linguagem eficaz.

Assim, ele sofre mais e, com isso, acredita que aparece mais. O ápice do herói é dizer "eu tive de fazer tudo, de me envolver em tudo porque sem mim nada ia ter acontecido". Outra característica do herói é a falsa multidisciplinaridade. Ele sabe tudo, mas pouco estudou além de sua área de atuação principal. É o falso autodidata. Ele sabe de contabilidade, de marketing, de legislação e tenta desqualificar os especialistas no setor. Mas não sustenta uma discussão mais profunda com eles e foge das mesmas. Em um debate enquanto o especialista vêm com pesquisas e argumentos técnicos, o herói se defende com o "eu acho" ou "aqui é diferente". 

E o herói continua com sua cruzada quixotesca brigando com seus moinhos de vento, com exércitos imaginários enquanto coloca seu pior inimigo como seu único companheiro: ele mesmo.