terça-feira, 12 de março de 2013

Não precisa ser perfeito. Basta ser honesto


Em uma reunião social em um passado recente, um episódio que poderia ser corriqueiro para muitas pessoas me fez parar para pensar. Cheguei a uma confraternização entre amigos ligeiramente mais quieta do que o normal (ou seria menos falante? Depende do ponto de vista). Uma das convidadas, que até então tinha pouca proximidade comigo, notou uma leve diferença no meu comportamento e veio me perguntar se estava tudo bem.

Agradeci o interesse e fiz um comentário superficial que estava um pouco preocupada com imprevistos financeiros e com algumas relações pessoais que estavam tomando rumo diferente do esperado, mas que era uma questão momentânea e que dali a pouco tudo voltaria ao normal. Não voltou. Isso porque a resposta dessa pessoa, que hoje além de cliente é também minha amiga, mudou alguns paradigmas para sempre.

Ela me olhou e disse: “pensei que todos os coaches fossem milionários e não passasem por problemas pessoais”.Em uma fração de segundo, a tendência foi pensar que aquele comentário seria uma crítica. Mas quando ela continuou o raciocínio, percebi como o significado era completamente diferente. Ela disse: “então você é gente como eu e como os outros. Eu imaginava que os coaches fossem uma categoria à parte da humanidade, pois eles nunca têm problemas e parecem estar constantemente nadando em dinheiro”. A fala dela não parou por aí: “eu sempre tive vontade de ter um coach, mas diante de pessoas tão perfeitas, eu pensava em como elas iam tratar minhas dúvidas, minhas limitações, se iriam me entender de verdade ou se eu me sentiria intimidada.

Perfil “fake”


Esse simples episódio me fez pensar por alguns dias sobre as posturas que vemos em alguns consultores, coaches, profissionais de treinamento e até de executivos de outras áreas. Máquinas de eficiência, com fórmulas mágicas, soluções para tudo e vida perfeita em todos os aspectos.

Hoje penso: quem acredita e compra essa falácia? Esse monte de mentiras que alguns consultores contam sobre o sucesso de sua vida pessoal e financeira. Estendo o comentário além dos profissionais liberais, chegando a executivos, diretores, CEOs e cargos semelhantes em grandes empresas. Há muita gente bem sucedida sim, e desejo que isso se estenda a todos. Mas é sempre bom lembrar que a perfeição não existe. Graças a Deus, pois ela é chata e limitante.

A função, ou o sentido da vida, é o aprendizado constante. Cada um dando o melhor de si dentro das condições existentes naquele momento, mas sempre com a consciência do aprendizado e do esforço contínuo para que amanhã seja melhor do que hoje. Aprendo muito com os meus clientes, talvez eles não se dêem conta disso.

O principal aprendizado é o de que a honestidade vale muito mais que uma imagem de sucesso construída muitas vezes sobre bases artificiais. A medida não é a comparação com o outro, mas consigo mesmo, de onde você saiu e aonde você chegou, ou está chegando, dentro das condições que teve e dos ambientes pelos quais passou. A melhoria contínua é uma construção conjunta e de confiança mútua, que só acontece quando as partes são transparentes e adoravelmente imperfeitas.


Ter um negócio exige mais que conhecimento técnico





Apesar de o índice de mortalidade das micro e pequenas empresas ter decrescido nos últimos anos, a vida dos pequenos empresários não é fácil. Afinal, além de entender do segmento em que está investindo, o empreendedor precisa entender de gente.

Ele sai da posição de técnico, que poderia ocupar em uma grande empresa, e passa para a de “dono”. Ferramentas não faltam. Excelentes instituições como o Sebrae ou a Endeavor oferecem cursos e seminários com baixo custo para ajudar essas pequenas empresas. São sistemas, softwares, a preços cada vez mais acessíveis e fáceis de usar.

E, mesmo assim, há negócios que emperram. Por que motivo? O mais provável seja a dificuldade em lidar com pessoas. É isso que costumo ouvir dos meus clientes de coaching. Ao sair de uma grande estrutura e tocar o próprio negócio, ou ao deixar de ser um profissional liberal para gerir a própria empresa, o empreendedor depara com algo que pouco ou nada aprendeu na escola: lidar com pessoas, inclusive com ele mesmo.

Na grande instituição havia respaldo para calçar decisões difíceis ou pouco populares. A quem recorrer e, às vezes, a quem responsabilizar. O profissional liberal, por outro lado, podia fazer tudo do seu “jeito” da maneira que “achava” certo, inclusive mudar de ideia em relação a horários, processos e forma, preocupando-se apenas se isso iria ou ao afetar o cliente.

O primeiro ponto a rever ao abrir o seu próprio negócio é a sensação de “dono” e de “vou fazer o que eu quero e apenas o que me dá prazer”. Os riscos que a sensação de “dono” costuma trazer podem ser divididos em dois grupos. O primeiro é o “vou fazer o que gosto” e o segundo é “agora pode ser do meu jeito”. O empreendedor que acreditar que essas duas sensações serão as dominantes do seu negócio está fadado ou a fechar nos primeiros anos ou a sobreviver duramente sob uma altíssima dose de estresse.


Espelhos do dono


“Vou fazer o que eu gosto” se torna um fardo mais leve se for substituído por “vou atuar em um segmento de negócios que me atrai”. Qual a diferença? Um exemplo prático poderia ser o chef de cozinha que resolve abrir um restaurante. Certamente será ele quem vai definir o cardápio, os temperos e será o detentor dos segredos daqueles sabores. Mas, o que ele menos vai fazer é cozinhar. Se ele quiser ser realmente “dono” do negócio, as atividades de gestão vão ocupar, pelo menos, 50% do seu tempo. Por mais que ele coloque softwares ou ferramentas, é o dono quem vai precisar checar se tudo funciona e, principalmente, gerir as pessoas que fazem “a parte chata” funcionar.

“Agora pode ser do meu jeito” é uma das maiores provas de que aquele pequeno empresário está desconectado do mundo nos negócios. A única coisa na vida que “pode ser do nosso jeito” é a nossa própria cabeça. E nem sempre, pois histórico familiar, ambientes e contextos influenciam. Lembro sempre meus clientes que um negócio, por menor que seja, está inserido em dois ambientes às vezes conflitantes: o externo e o interno.

O ambiente externo é feito basicamente de clientes e concorrência. Se não houver compreensão – sem julgamento - desses dois pilares, o negócio não anda. Voltando ao exemplo anterior, por mais sofisticadas que sejam as criações daquele chef de cozinha, se o público não gostar do tempero, o restaurante não sobrevive. Por melhor que seja a comida, se o restaurante vizinho oferecer qualidade semelhante, acrescida de outras vantagens (nem sempre financeiras), a chance de não progredir é grande.

Já o ambiente interno, funcionários e podemos até estender a fornecedores e parceiros, é formado por pessoas que têm expectativas, históricos de vida, formações, qualidades e problemas diferentes. Os funcionários já não são mais máquinas reprodutoras de processos e dependentes de um único emprego para o resto da vida como no início da industrialização. Ao mesmo tempo em que trazem ideias, também geram conflitos. Conflitos esses que podem ser minimizados se o empreendedor conseguir olhar aquele grupo como pessoas, que pensam, interpretam e sentem de maneira única. Funcionários são gente e não apenas um espelho do dono.


“Ah mas eu acho que” costuma ser a sentença de morte de muitos empresários. Empreendedor não “acha”, conhece. Lidar com pessoas – pois tudo aqui envolve pessoas – não é opinião pessoal, mas conhecimento, análise. Quando coloco essas questões para os meus clientes, costumo notar resistência imediata como se conhecimento fosse prerrogativa de grandes empresas que podem investir em pesquisas de mercado ou em sofisticadas ferramentas de gestão de pessoas.

Nada disso. Conhecimento e análise vêm inicialmente da postura de humildade e da conexão desse pequeno empresário. Primeiramente de ele se conscientizar que é dono do negócio e não “dono do mundo”. Que há dinâmicas próprias dentro e fora das paredes do seu estabelecimento que precisam ser, no mínimo, respeitadas. Conhecer o outro é, antes de tudo, observar e tirar de si os filtros da própria percepção. É olhar o outro sem preconceitos e julgamentos, sem querer encaixar o outro na sua lógica. Mais do que ferramentas, esse empreendedor precisa se conhecer e aprender a olhar pessoas.

Seria possível colocar aqui um terceiro item, a popular frase “ah mas aqui sempre foi assim” ou "aqui é diferente". Essa negação dos fatos aliada à necessidade de se manter em uma zona de conforto merecem um artigo próprio. Quem sabe na próxima quinzena.